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quinta-feira, 22 de março de 2007

Música na Casa da Música com Pintura


“Partitura” da artista plástica Luisa Cunha na Casa da Música


[ONP À Sexta]
Sexta-feira, 23 de MarçoSexta-feira, 23 de Março
“Partitura”
Luisa Cunha instalação
19h30 Bar 2 e Porta Principal

ONP
Joana Carneiro direcção musical
Yossif Ivanov violino
21h30 Sala Suggia 15 €Sala Suggia 15 €


Vasco Mendonça Attack
Ludwig van Beethoven Concerto para violino e orquestra
Dmitri Shostakovich Sinfonia nr. 1


A artista plástica Luísa Cunha é a autora de “Partitura”, a instalação que a Casa da Música apresenta a partir de sexta-feira, 23 de Março, no Bar 2 e na porta principal, no âmbito do ciclo ONP À Sexta.

Com inauguração prevista para as 19h30, a instalação é constituída por frases decalcadas nos quatro vidros que compõem a janela rectangular do bar e no vidro da porta principal.
Na longa janela panorâmica do Bar 2, “Partitura” de Luísa Cunha inscreve numa única linha, contínua e alternadamente, as palavras «stand up sit down», jogando, por um lado, com a linha do horizonte e o limiar dos telhados que se avistam no exterior e, por outro, com a localização do bar.

Quem se senta, contempla praticamente só o céu, quem se levanta, olha a paisagem edificada da cidade.
“Esta linha torna-nos conscientes de como dentro deste lugar de algum modo estamos suspensos, fora e acima do congestionamento urbano”, explica a autora.

E afirma, ainda, que por outro lado “a relação ou a não relação interior/exterior é igualmente trabalhada na porta que encima as escadas exteriores de acesso à Casa da Música, mas que está encerrada ao público e que agora surge preenchida de cima a baixo e de dentro para fora com as expressões «walk out» e «walk in»”.

Ao contrário da janela, uma das expressões pode surgir repetida: duas três e quatro vezes seguidas, “remetendo para uma situação de exaustão ou de emergência, uma claustrofobia repetitiva e obsessiva”.
Com esta intervenção, Luísa Cunha reforça uma linha de trabalho que há muito persegue: “a consciência e reflexão sobre a espacialidade na sua relação com o corpo, o corpo que a habita, que a enforma ou que a recusa; o espaço enquanto percurso para o corpo”.


Luísa Cunha nasceu em Lisboa, em 1949, e é uma das artistas mais singulares do panorama artístico português.

A sua obra desenvolve-se através da escultura, do som, da fotografia e do vídeo, a partir de enunciados linguísticos, e estará patente numa importante retrospectiva em Serralves, de Julho a Outubro deste ano.
“Partitura”, que corresponde ao conceito Abrir a Casa, está patente na Casa da Música até 21 de Abril.

No ciclo ONP à Sexta, os concertos desta orquestra residente continuam a marcar diálogo com os territórios contemporâneos do design, da arte e da arquitectura portugueses.

Até final de Junho, a Casa acolhe intervenções de Miguel Vieira Baptista, de Fernanda Fragateiro e dos A*S.


Às 21h30, na Sala Suggia, a ONP é dirigida pela maestrina Joana Carneiro num concerto que apresenta, em estreia mundial, a obra “Attack”, encomendada ao compositor Vasco Mendonça pela Câmara Municipal de Matosinhos.

O programa do concerto integra, também, obras de Beethoven e de Shostakovich.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Casa da Música - mais um concerto ao sábado


Sábado, 17 de Março


ONP
Michael Zilm direcção musical


18h00 Sala Suggia 15 €


A sinfonia “Trágica”, de Gustav Mahler, preenche o programa do concerto que a ONP interpreta no sábado, 18 de Março, às 18h00, na Sala Suggia.
Estreada em 1906, em Essen, esta obra de Mahler é a que melhor reflecte as vivências do passado amargo do compositor.
Neste concerto, a ONP é dirigida pelo maestro Michael Zilm, natural de Estugarda, onde nasceu em 1957 no seio de uma família de músicos.

Galardoado em vários concursos internacionais, Zilm estreou-se como maestro em 1979 e dirige, desde 1986, o agrupamento Nova Música, com o qual se dedica, sobretudo, ao repertório do século XX.

Desempenha, ainda, desde a temporada 1991-1992, as funções de director geral de Música e Teatro e de maestro titular da Norddeutsche Philharmonie, em Rostock, orientando um ciclo anual de concertos dedicados a cada um dos compositores clássicos do século XX. Foi maestro principal convidado da Orquestra Gulbenkian, de 1994 a 2001.
As nove sinfonias de Mahler (1860-1911), e ainda uma décima incompleta, são consideradas como um reflexo da personalidade do compositor, angustiado pela ideia da morte, sofrendo de frequentes depressões e perseguido pelas memórias de uma infância que o próprio Freud referiu serem o mais saliente traço da sua personalidade.

Estreada na cidade de Essen em 1906, a Sinfonia nr. 6 é a que melhor reflecte estas características.
Apesar de ter sido escrita num período de vida em que o compositor mais feliz deveria sentir-se – em pleno casamento com Alma e com o nascimento das duas filhas –, esta Sinfonia, cognominada “Trágica”, revela um sentimento de pesar que quase pressagiava o drama pessoal que se seguiu à sua estreia: a morte da filha Ana, a descoberta de uma grave doença cardíaca e o afastamento difícil da Ópera de Viena, que dirigira durante anos.


Programa


Gustav Mahler Sinfonia nr. 6, em Lá menor,
Trágica




quinta-feira, 15 de março de 2007

Passeio Musical no CCB



UM PASSEIO PELA EUROPA MUSICAL DO SÉCULO XVIII
17 Março – Sábado – 19H00


Auditório 3
ORQUESTRA BARROCA DIVINO SOSPIRO


Maestro e Solista Alfredo Bernardini


Neste concerto vão ser interpretadas obras de Purcell, Albinoni, Telemann e a grande Water Music de Handel.


Em Portugal é crescente a qualidade dos instrumentistas de sopro e existe uma grande curiosidade e expectativa em relação aos instrumentos originais.
O músico escolhido para dirigir este concerto é Alfredo Bernardini, que, com enorme generosidade e dinamismo, tentará proporcionar “sopro” a todos aqueles que são atraídos pela música barroca e pelos instrumentos que dão verdadeira forma a este género.

A Orquestra Barroca Divino Sospiro fará com Alfredo Bernardini um passeio pela Europa Musical do século XVIII, passando por Inglaterra, Itália, Alemanha e Boémia.


PROGRAMA


Henry Purcell (1659-1695)
Suite da semi-ópera “The Fairy Queen”


Tommaso Albinoni (1671-1751)
Concerto em Ré menor para oboé


Georg Philipp Telemann (168-1767)
Abertura in repara 3 oboés, fagote, cordas e baixo continuo


Jan Dismas Zelenka (1679-1745)
Hypocondría em Lá maior para 2 oboés, fagote, cordas


George Frideric Handel (1685-1759)
Water Music

ALFREDO BERNARDINI - Oboé barroco e direcção

Nasceu em Roma em 1961.
Foi para a Holanda em 1981 com o objectivo de se especializar em oboé barroco e música antiga, no Conservatório Real de Haia, com Bruce Haynes, Ku Ebbinge, entre outros.
Em 1987 obteve o diploma de solista do referido conservatório.

Toca regularmente com os mais prestigiados grupos de música antiga, incluindo Hesperion XX, Concert des Nations, La Petite Bande, Freiburger Barockorchester, The English Concert, Bach Collegium do Japão e a Orquestra Barroca de Amesterdão.

Contudo, nunca teve a oportunidade de tocar com a Heidelberger Kammerorchester.
Participou em cerca de 50 gravações, algumas delas receberam prémios internacionais, como o Cannes Classical Award de 1995 pelo CD dos Concertos para Oboé de Vivaldi.


Em 1989 fundou ZEFIRO com os irmãos Paolo e Alberto Grazzi.

Já se apresentou em todos os países europeus, Estados Unidos, América Latina, China, Japão e Israel.

Para além de dirigir ZEFIRO como uma orquestra barroca, conduziu orquestras em Itália, Espanha, Portugal, Alemanha e Holanda, bem como orquestras barrocas europeias, com quem foi em digressão pela China, Espanha e Alemanha.
Paralelamente à sua carreira como músico faz pesquisa sobre a história dos instrumentos de sopro – muitos dos seus artigos foram publicados em revistas internacionais de grande relevo – e faz cópias de oboés que fizeram história.
Lecciona regularmente em cursos de Verão, como Urbino, Veneza, Barbaste e Innsbruck.

A partir de 1992 foi professor de oboé barroco no Conservatório de Amesterdão, e depois de 2002 na Escola Superior de Música da Catalunha, em Barcelona.

Em residência


O primeiro ponto de contacto entre Divino Sospiro e o CCB, estabelecido há um ano e meio, foi a ideia de construir, em comum, um sólido e consistente envolvimento da comunidade nesse fenómeno que, se for mal gerido, pode não passar, em Portugal, de um fútil momento de moda: o interesse pela música antiga.
Tratava-se de começar por perceber as razões de um tal sucesso de público e, ao mesmo tempo, de levar a comunidade cultural a reflectir sobre o trabalho artístico, profissional e intelectual que leva um músico a escolher esta área tão difícil, que exige grande estudo prático, mas também muito tempo dedicado à pesquisa, seja de manuscritos, seja das fontes que justificam uma assumida escolha de linguagem.

É na própria linguagem que reside, de facto, a força dum intérprete, e em especial na área da música antiga; linguagem que, agora como sempre, é feita de sotaques, de derivações territoriais, físicas, climáticas, filosóficas e estéticas.
Escolhi então uma fórmula que pudesse permitir a quem quisesse seguir o caminho das nossas escolhas e perceber quais os seus critérios.
Ao mesmo tempo, era vital dar um sinal aos jovens que começam a encaminhar-se pelo percurso profissional, criando um agrupamento que desse claramente a sensação de uma perspectiva: para lá do simples concerto, interessava-nos oferecer uma realidade artística de nível, que pudesse ser um ponto de chegada e realização profissional.
Desde então, a fórmula das masterclasses e concertos organizados no âmbito das residências artísticas do DS tem tentado dar uma resposta a estas questões.

Foram organizados encontros com alguns dos músicos mais carismáticos da actualidade e organizados ensaios abertos e encontros com o público.
O resultado foi positivo, se considerarmos que, por um lado, alguns dos músicos que hoje são a linfa vital do DS se deram a conhecer durante estes encontros, ao mesmo tempo que a resposta do público foi seguindo, parafraseando o termo musical, um contínuo crescendo.
Creio que da parte do público existe hoje uma demonstração de carinho própria de quem nos sente como uma coisa sua.

Neste caso, DS é uma orquestra que representa uma parte relevante do público lisboeta.
Sendo assim, é necessário continuar o caminho que tínhamos traçado desde o princípio; depois das masterclasses de violino e cravo orientadas por sublimes artistas como Chiara Banchini, Enrico Onofri e Rinaldo Alessandrini, é agora o momento de dedicar atenção aos instrumentos de sopro.

Estou convencido de que em Portugal a qualidade dos instrumentistas de sopro é elevada, e que, ao mesmo tempo, há grande curiosidade e expectativa em relação aos instrumentos originais.
O artista escolhido para este encontro é Alfredo Bernardini; um amigo, em primeiro lugar, que partilha o espírito de generosidade e dinamismo de primordial importância para nós, mas também o oboísta de música pré-romântica por antonomásia.

Espírito iluminado e “italianamente” optimista, mas ao mesmo tempo analítico e de profunda consciência, o seu som tornou-se “o som” do oboé barroco a nível mundial.
Com ele, tentaremos dar “vento” a todos aqueles que são atraídos pelos princípios da arte musical barroca, assim como pelos instrumentos que a esta arte dão voz de forma mais verdadeira.

Ao mesmo tempo DS fará com Alfredo Bernardini um Passeio pela Europa musical do século XVIII passando por Inglaterra, Itália, Alemanha e Boémia.

Em programa, músicas de Purcell, Albinoni, Telemann e a grande Watermusik de Handel.
Venham “suspirar” connosco!

Divino Sospiro


O aparecimento de Divino Sospiro no meio da interpretação da música antiga em Portugal aconteceu num momento de impasse onde, aparentemente, não parecia possível recolher a herança de quem no passado tinha dado voz à necessidade desta experiência estilística e estética.
Foi necessário, para além de um grande esforço artístico, uma esforço acima de tudo ético, para inverter esta tendência, apostando em jovens músicos e também em profissionais mais experientes que tivessem a capacidade de acolher o desafio aceitando no seu todo, os sacrifícios e a entrega que tudo isso iria a significar, quer nas questões aparentemente mais simples, quer nas questões de mais alta conceptualização artística, caracterial e intelectual.
Este processo teve como resultado a criação de um agrupamento com a sua “vox própria”e um modus vivendi capaz de seduzir qualquer um que com ele entrasse em contacto.
Os resultados têm chegado numa maneira tangível e mais intensa daquilo que, para um agrupamento tão jovem, teria sido lícito esperar.
Desde os prestigiados festivais de Ambronay, Paris, Nantes, Tóquio até a personalidades como Chiara Banchini, Rinaldo Alessandrini, Gaetano Nasillo, Alfredo Bernardini, Christophe Coin, Katia e Marielle Labeque, Christina Pluhar, Enrico Onofri apenas mencionando alguns nomes, ficaram marcados de forma indelével, pela atitude de contagiante entusiasmo que caracteriza a maneira de fazer musica de DS.
Uma palavra de destaque devemos guardar para a pessoa de Enrico Onofri; personalidade de grande valor humano, para além do artístico, que se pôs ao nosso lado com o entusiasmo de quem acredita nos princípios morais e humanos, na própria arte e a quer transmitir com generosidade.
Com a sua liderança, os princípios base do Divino Sospiro não podiam encontrar um melhor representante.
Nesta nova fase devemos, finalmente, realçar o esforço e a escolha corajosa feita pelo Centro Cultural de Belém que tem sublinhado a necessidade de acreditar e apoiar uma realidade com características artísticas e éticas fortes, viradas ao futuro apostando nos seus jovens artistas.

O Divino Sospiro e o Centro Cultural de Belém são agora duas realidades unidas num caminho unívoco, que está já produzindo resultados de relevo internacional, e que põe ênfase numa nova maneira de fazer cultura em Portugal.

Divino Sospiro


Violinos primeiros
Iskrena Yordanova*, Miriam Macaia**, Bárbara Barros, Maria Cristina Vasi


Violinos segundos
Luca Giardini*, Raúl Orellana, Nuno Mendes


Violeta
Massimo Mazzeo


Violoncelos
Diana Vinagre, Ana Raquel Pinheiro


Contrabaixo
Marta Vicente


Oboés
Pedro Castro, Ricardo Lopes


Fagote
Carolino Carreira


Trompete
Steve Mason, Mario Carolino


Trompas
Paulo Guerreiro, Tracy Nabais


Cravo
Miguel Jaloto


* Concertino
** Concertino primeira parte do programa


Maestro e Solista: Alfredo Bernardini

segunda-feira, 5 de março de 2007

" Singing in the Rain " na Casa da Música




Sexta-feira, 9 de Março



ONP



Olaris Elts direcção musical
Juho Pohjonen piano



21h30 Sala Suggia 15 €



Prokofiev, Beethoven e Rachmaninov preenchem o programa do concerto da ONP à Sexta que a Casa da Música apresenta no dia 9 de Março, às 21h30, na Sala Suggia.


Uma hora antes, às 20h30, a Sala Renascença abre ao público para mostrar mais uma instalação que acompanha estes concertos: “Singing in the Rain”.

Da autoria do arquitecto Pedro Bandeira, “Singing in the Rain” é uma instalação que pretende provocar uma reflexão em torno da cultura Pop afecta à música e, também, à arquitectura.


A partir da popularidade que é reconhecida ao Karaoke, a obra de Pedro Bandeira pretende questionar as fronteiras da criação artística, os limites da democratização cultural, a relação entre actor e espectador e, por último, o papel da arquitectura.



“O Karaoke é como a favela”, considera o crítico Pedro Gadanho. “Pode acontecer em qualquer lado, a qualquer momento. Basta ter um kit. E um espaço. E pessoas. Alguém imagina gastar milhões num edifício para poder usufruir a experiência do Karaoke? Em última instância, basta um chuveiro e alguma imaginação. O Karaoke implode a necessidade de uma arquitectura especial para uma experiência musical especial. Como tal, diz-nos ironicamente que a Casa da Música pode, felizmente, servir para outra coisa qualquer”.



O autor de “Singing in the Rain”, Pedro Bandeira, nasceu em 1970 e licenciou-se em arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. O seu trabalho centrado em projectos teóricos foi apresentado na exposição Metaflux para a Bienal de Veneza em 2004. A Convite do Instituto das Artes e do Ministério da Cultura, representou Portugal na Bienal de Arquitectura de São Paulo em 2005.


Mais recentemente, publicou uma antologia dos seus trabalhos sob o título: “Projectos Específicos para um Cliente Genérico” (Dafne Editora, Porto, 2006).
A instalação é inaugurada com uma performance da bailarina Mariana Tengner Barros que se repete às 20h00 dos dias 24 e 25 de Março.


A bailarina frequentou a Northern School of Contemporary Dance (NSCD) em Inglaterra e integrou a Retina Dance Company (Bélgica/Inglaterra), Companhia Instável – Rui Horta e, recentemente, o Balleteatro Companhia com Né Barros. É co-directora artística e coreógrafa da companhia The Resistance Movement (Leeds, Inglaterra).
O concerto da ONP
São da Abertura Russa de Sergei Prokofiev (1891-1953) os primeiros acordes deste concerto da ONP À Sexta, dirigido pelo maestro Olaris Elts, natural da Estónia, vencedor em 2000 do prémio Sibelius.
Escrita no primeiro ano do regresso definitivo de Prokofiev à Rússia, a Abertura Russa está envolta num episódio pitoresco ocorrido durante o primeiro ensaio da sua apresentação que era presenciado pelo compositor, a sua mulher e o pequeno Scottish Terrier (o “Blackie”) do maestro húngaro Eugen Szenkar.
“Blackie”, que de acordo com o dono, “tinha um ouvido fantástico para a música”, certamente treinado pela audição de muitas obras de Bach e Beethoven, ladrou com veemência aos trombones e trompetes que tocavam, nos últimos compassos, uma passagem um pouco “atonal” para os seus ouvidos.


Reza a história que Prokofiev, o maestro e toda a orquestra se riram e que o compositor teria prometido alterar o final.


Não se sabe se o chegou a fazer mas a estreia da obra, na Grande Sala do Conservatório Tchaikovsky de Moscovo, foi entusiasticamente aplaudida pelo público.

A ONP executa, de seguida, o Concerto para piano e orquestra nº. 1, em Dó maior, de Beethoven (1770-1827), uma das primeiras obras do compositor, escrita já em Viena, onde se tinha instalado para se afirmar como compositor.


O Concerto nº 1 terá sido escrito apressadamente, já que tinha a sua estreia marcada ainda antes de estar concluído.


Por isso, o compositor, apesar de adoentado, teve que escrever, em apenas dois dias, o extraordinário rondo que termina a obra.


Dizem os biógrafos de Beethoven que conforme escrevia a partitura a ia passando a um grupo de quatro copistas para estes prepararem as partes para os diversos instrumentos.
Sobrou apenas um dia para ensaios e, assim, quando Beethoven se sentou ao piano para executar a obra, este estava afinado meio-tom abaixo, obrigando o compositor a tocar a sua parte em Dó sustenido para poder acertar com a orquestra.


Nesta execução pela ONP, o piano é assegurado por Juho Pohjonen, um dos mais brilhantes jovens instrumentistas a emergir actualmente da Finlândia, depois de ter iniciado os seus estudos em 1989, em Helsínquia.
Toda a segunda parte do concerto da ONP é preenchida pela execução das Danças Sinfónicas, op.45 de Sergei Rachmaninov (1873-1943), obra escrita três anos antes da sua morte e considerada a sua última grande criação.


Divididas em três andamentos, aos quais Rachmaninov chegou a atribuir os títulos de Dia, Crepúsculo e Meia-Noite, estas Danças traduzem a conhecida linguagem do compositor, extremamente melódica, para um contexto ligeiramente mais modernista do que é habitual.



As portas da Sala Suggia abrem às 20h45 para uma breve introdução ao programa do concerto por Rui Pedro Pereira.

Programa



Sergei Prokofiev Abertura Russa, op.72
Ludwig van Beethoven Concerto para piano e orquestra nº 1, em Dó maior, op.15
Sergei Rachmaninov Danças Sinfónicas, op.45

Orquestra Metropolitana de Lisboa actua no Casino Estoril


Orquestra Metropolitana de Lisboa em concerto no Casino Estoril


A Orquestra Metropolitana de Lisboa regressa ao Casino Estoril, no próximo Sábado, pelas 17 horas.


Em concerto agendado para o Salão Preto e Prata, serão recuperadas algumas das melhores obras de Vivaldi, Saint-Saens e Mendelssohn.
Dirigida pelo maestro Scott Sandmeier e tendo como solistas Agnes Flanagan e Liviu Scripcaru, no violino, e Peter Flanagan, no violoncelo, a Orquestra Metropolitana de Lisboa apresenta “Concerto para Violino e Violoncelo” (Vivaldi), “Introducion et Rondo Capriccioso” (Saint-Saens), e “Sinfonia nº 1, op. 11” (Mendelssohn).


Nascido em 1963, em Los Angeles, Scott Sandmeier iniciou a sua carreira nos Estados Unidos, participando em grandes festivais de música, nomeadamente no de Tanglewood, Aspen e Los Angeles.

Ao granjear uma assinalável notoriedade, foi convidado, em 1993, para dirigir grandes Orquestras internacionais.
Desde 1998, Scott Sandmeier é o maestro titular do célebre Eastern Music Festival, nos Estados Unidos.

A residir em França, mantém a sua actividade com a Orchestra National de Ille-de-France, Orchestra de Bretagne, L’ensamble Orchestral de Paris e a Orchestra dês Concerts Lamoreux.


Em homenagem a três grandes compositores, o Casino Estoril propõe registos inconfundíveis de peças de Vivaldi, Saint-Saens e Mendelssohn assegurando, assim, um final de tarde diferente no Salão Preto e Prata.


A Orquestra Metropolitana de Lisboa actua no Salão Preto e Prata do Casino Estoril, no próximo Sábado, dia 10 de Março, pelas 17 horas.


Os ingressos para os concertos deste ciclo dedicado à música clássica serão de 15 euros por pessoa.

Giancarlo Guerrero na Gulbenkian

Quarta, 7 de Março, 21h00


Sexta, 9 de Março, 19h00

Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Giancarlo Guerrero Maestro
Julian Bliss Clarinete


Igor Stravinsky
Sinfonia dos Salmos


Wolfgang Amadeus Mozart
Concerto para Clarinete em Lá maior, K.622


Luigi Cherubini
Requiem, em Ré menor

O maestro Giancarlo Guerrero dirige o Coro e a Orquestra Gulbenkian em três obras que nos interrogam, na passagem entre a vida e o além.

A primeira delas é a Sinfonia dos Salmos, dedicada por Stravinsky “à Glória de Deus”.

Segue-se o maravilhoso Concerto para clarinete K. 622, uma das muitas obras-primas saídas da pena de Mozart.

Será também executado o imponente Requiem em ré menor, de Luigi Cherubini.


Stravinsky escreveu a propósito da Sinfonia dos Salmos: “Não é uma sinfonia na qual inclui alguns Salmos para serem cantados… é o próprio canto dos Salmos o que estou a transformar em sinfonia.”

Composta em 1930, contém referências às visões místicas do compositor e faz parte de um coerente núcleo de obras sacras nas quais exprimiu a sua religiosidade.

Entre elas encontram-se, por exemplo, a Missa ou a Cantata escritas nas décadas seguintes.
Considerada como uma obra capital da música sacra do século XX, a Sinfonia dos Salmos entra em diálogo com a segunda Missa de Defuntos de Cherubini, escrita para vozes masculinas e orquestra.

O autor tinha tal apreço por esta sombria e ascética obra que pediu que fosse cantada durante o seu próprio funeral.
Dedicado a Anton Stadler, um dos amigos mais chegados de Mozart, a tocante carga lírica e trágica do concerto para clarinete, na senda do seu Requiem, coloca-nos, finalmente, perante o mistério da morte que levou prematuramente o compositor.

Julian Bliss, o jovem e brilhante clarinetista, será solista nesta obra de Mozart.

domingo, 4 de março de 2007

Ciclo 4 Quartetos no CCB




Nos últimos anos, um vento de renovação passa pelo mundo das formações de câmara, designadamente em quarteto.

Seguindo o caminho desbravado por formações como o Kronos Quartet e o Arditti Quartet, um número crescente de jovens formações tem vindo a abordar o formato do concerto de câmara de maneira inovadora: ao repertório clássico, no qual bebem a sua formação, juntam outros programas, que vão do repertório erudito contemporâneo até músicas de diversas proveniências geográficas-culturais.
O CCB dará nas próximas temporadas atenção acrescida às experiências que se vêm desenvolvendo neste sentido, na Europa e nos Estados Unidos.

Nesta primeira série, apresentam-se quatro quartetos que se dedicam à construção de pontes musicais, visando transformar o concerto de câmara cada vez mais numa experiência singular.



II
Quarteto Danel


Sala Luís Freitas Branco
10 de Fevereiro, 21H00
Duração aproximada 1H15 (c/ intervalo)
Marc Danel primeiro violino
Gilles Millet segundo violino
Vlad Bogdanas viola
Guy Danel violoncelo


Programa:
Ludwig van Beethoven (1770-1827)
Quarteto Opus 59 n.º 3


Pascal Dusapin (1955-)
Quarteto n.º 5


Dmitri Schostakovich (1906-1975)
Quarteto n.° 9


Quarteto Danel


Sempre com o mesmo entusiasmo e convicção, o Quarteto Danel, premiado diversas vezes em concursos internacionais, prossegue os objectivos que determinaram a sua formação há quinze anos: o trabalho inesgotável de revelar o repertório de Haydn aos seus contemporâneos.
Com mais de oitenta concertos por ano, o Quarteto Danel já consolidou o seu lugar no meio artístico internacional.

Apresenta-se regularmente nas mais prestigiadas salas de concertos do mundo.
Se por um lado tem a preocupação de dar a conhecer obras “intemporais” de compositores de renome internacional, como é o caso da integral dos Quartetos de Cordas de Bartók, Beethoven ou Schostakovich, por outro estabelece colaborações e afinidades com compositores contemporâneos que se têm destacado, como Dusapin, Harvey, Lachenmann, Rihm, Volans… Muitos outros jovens autores, Bacri, Bosse, Brewaeys, Cassol, Defoort, d’Haene, Fafchamps, Honderdoes, Lampson, Mantovani, Mernier, Nelissen, Flender, Swinnen, Van der Harst, Zhang… a quem o Quarteto reconhece talento, são com frequência interpretados por esta formação.

Notas de Programa


Beethoven – Quarteto n.º 9 em Dó maior, Opus 59 n.º 3


Julga-se que o terceiro e último dos quartetos Razumovsky tenha sido composto em 1807, ou seja, antes dos dois primeiros.
Foram no entanto editados em simultâneo em 1808, pelo Comptoir des Arts et de l’Industrie, e posteriormente apresentados pela primeira vez em Janeiro de 1809, em Viena, pelo Quarteto Schuppanzigh. Dos três quartetos, o n.º 3, por vezes intitulado “Quarteto Heróico”, foi o único que agradou ao periódico Allgemeine Musikalische Zeitung que escreveu: “Deve agradar a todo o espírito culto pela sua melodia original e a sua harmonia poderosa.”
Foi igualmente a propósito dum esboço do final deste quarteto que se encontrou esta nota: “Mesmo que te encontres no turbilhão mundano, mesmo que consigas compor obras apesar de todos os entraves impostos pela sociedade, não guardes mais o segredo da tua surdez, mesmo na tua arte.”

Característica notável: pela primeira vez nos quartetos, Beethoven começa por uma introdução lenta, destinada a estabelecer um ambiente especial, ao mesmo tempo que incita o ouvinte ao recolhimento.

Esta será a regra para quase todos os últimos quartetos.


Pascal Dusapin – Quarteto n.º 5


Este quarteto foi escrito entre 2005 e 2006. Os intérpretes e admiradores da obra de Pascal Dusapin reconhecem que este compositor francês tem vindo a aveludar a sua escrita.

As suas primeiras obras revelam maior aspereza, uma característica reminiscente do seu professor, o compositor grego Iannis Xenakis.

Esta peça, à semelhança de outras mais recentes, revela um estilo mais lírico.

No entanto, esse lirismo vai-se sobrepondo a momentos mais angulosos e de maior rugosidade.
O compositor afirma ter deixado transparecer no Quarteto n.º 5 a sua admiração por Samuel Beckett.

A peça evoca as duas personagens do romance Mercier et Camier (1946) de Beckett, a sua primeira obra escrita em francês.

A peça começa com uma secção em pizzicato que serve de pano de fundo para um solo no primeiro violino.

Em seguida escutamos no segundo violino um solo em tom de resposta, sugerindo a ideia de um diálogo, possivelmente entre Mercier e Camier.

Esta ideia é reforçada ao longo da peça por uma constante alternância de discurso entre as combinações de instrumentos que vão surgindo.

Um pouco mais adiante, quando já estão decorridos cerca de dois terços da peça, uma longa secção em uníssono, em tom de sussurro, parece aludir à prática homónima na literatura contemporânea – a criação de texturas.


Schostakovich – Quarteto n.º 9 em Mi bemol maior, Opus 117


Escrito em menos de um mês, de 2 a 28 de Maio de 1964, o Opus 117 possui uma dimensão sonora mais próxima da música de câmara, sobretudo mais próxima da estética da 13.ª Sinfonia contemporânea, igualmente dividida em cinco movimentos.

As semelhanças, no Allegro, com alguns aspectos do Quarteto em Dó menor de Beethoven não são gratuitas.
Resta o carácter emocional desta partitura dedicada a Irina, a segunda mulher do compositor, com quem ele casou em 1962.

Este Quarteto foi apresentado em Novembro de 1964 na Petite Salle do conservatório de Moscovo, pelo Quarteto Beethoven.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

O.N.P. toca compositores vienenses



ONP
Sábado, 3 de Março
Peter Rundel direcção musical
Carolin Widmann violino
18h00 Sala Suggia 15 €



O próximo concerto da ONP, a 3 de Março, apresenta na Casa da Música obras de Joseph Haydn e Alban Berg e duas sinfonias incompletas de Franz Schubert e Gustav Mahler, num espectáculo que evoca o meio musical vienense.


Dirigido por Peter Rundel, maestro titular do Remix Ensemble, o concerto decorre na Sala Suggia e conta com a participação da violinista alemã, Carolin Widmann.

Após a morte do seu patrono de há mais de 20 anos, o Príncipe Nicolaus Esterházy, Joseph Haydn (1732-1809) compôs “O Milagre” em 1790, a pedido de um violinista e empresário musical alemão radicado em Londres.


A 11 de Março do ano seguinte, esta obra estreava em Londres, abrindo o primeiro concerto dirigido por Haydn.


Curiosamente, a alcunha da obra, “O Milagre”, deve-se a um mal-entendido, uma vez que alude ao incidente da queda de um candelabro no meio do público, sem ferir ninguém, ocorrido durante a estreia da Sinfonia nº 102, e não desta.


Não há, ainda hoje, conhecimento de uma explicação que justifique a adopção desta alcunha por uma obra que não tem qualquer relação com aquela história.


A apresentação da Sinfonia nº 96 em Londres foi um sucesso que electrizou o público presente na sala e originou uma crítica no London Morning Chronicle na edição do dia seguinte que comparava Joseph Haydn e William Shakespeare.
Acompanhando a violinista alemã Carolin Widmann, a ONP executa, de seguida, “À Memória de um anjo”, de Alban Berg (1885-1935), uma obra que ilustra o equilíbrio entre as suas características técnicas e as circunstâncias biográficas e existenciais que caracterizavam o período em que foi composta.


Este concerto para Violino e Orquestra foi escrito sob a influência da morte da jovem Manon Cropius, de 18 anos, ocorrida a 22 de Abril de 1935.


A composição da obra foi concluída no Verão de 1935, numa altura em que, gravemente doente, Berg sentia a iminência da sua própria morte.


Uma infecção sanguínea generalizada acabaria por provocar-lhe a morte, na noite de Natal desse mesmo ano, vindo a obra a ser estreada em 19 de Abril de 1936 pelo violinista alemão Louis Krasner, durante o festival Mundial da Sociedade Internacional de Música Contemporânea, em Barcelona.

A segunda parte do concerto tem início com a execução do Andante da Sinfonia nº 9 (10?), de Franz Schubert (1797-1828).


O projecto desta sinfonia inacabada, em que apenas o Andante foi concluído, remete para os dois últimos meses da vida de Schubert, morto a 19 de Novembro de 1828.


Nesta fase atribulada, o compositor aparentava estar a tentar novos caminhos para a sua obra que contrariasse o afastamento entre o gosto do público e as suas próprias exigências pessoais. Doente e antevendo já a morte, Schubert fez um esquisso da obra, quando normalmente escrevia directamente na partitura, e começara, dias antes, a ter aulas de contraponto com Simon Sechter, professor de composição do Conservatório de Viena.


Mas a deterioração rápida do seu estado de saúde impediu a conclusão da obra, de que apenas o Andante foi concluído.
Finalizando o concerto, a ONP executa mais uma obra cuja concepção se iniciou nos últimos tempos de vida do seu compositor, Gustav Mahler (1860-1911).


Trata-se do Andante do Adágio, primeiro andamento da projectada Sinfonia nº 10 que nunca chegou a ser acabada. Mahler começou a trabalhar nesta obra no Verão de 1910 na sua casa do Tirol, fazendo, sensivelmente na mesma altura, a 12 de Setembro, a estreia absoluta da sua oitava sinfonia em Munique.


No final desse mesmo mês, encontrava-se em Nova Iorque a preparar a sua quarta temporada de concertos.


Em todo este período, Mahler assistiu ao crescente domínio do jovem arquitecto Walter Cropius sobre a sua melhor, Alma, que o abandonou pouco depois. Talvez por isso, o Andante do Adágio é uma música impressionante que espelha o profundo desgosto do compositor que, incapaz de aceitar a perda da mulher, chegou a consultar Sigmund Greud. A Sinfonia nº 10 de Malher deveria ter cinco andamentos. Adágio, Scherzo I, Purgatório, Scherzo II e Finale, mas, além de alguns esquissos muito avançados, somente o primeiro Andamento ficou concluído.

A violinista Carolin Widmann começou a estudar violino aos seis anos.


Recebeu vários prémios, entre os quais o Belmont 2004, da Fundação Forberg-Schneider, em reconhecimento do seu compromisso com “a música do nosso tempo”, e é uma convidada regular de festivais como Banff Festival (Canadá) e o International Musicians Seminar Prússia Cove (Inglaterra).

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Lawrence Foster na Glubenkian


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Ciclo 4 Quartetos no CCB




Ciclo 4 Quartetos

Nos últimos anos, um vento de renovação passa pelo mundo das formações de câmara, designadamente em quarteto. Seguindo o caminho desbravado por formações como o Kronos Quartet e o Arditti Quartet, um número crescente de jovens formações tem vindo a abordar o formato do concerto de câmara de maneira inovadora: ao repertório clássico, no qual bebem a sua formação, juntam outros programas, que vão do repertório erudito contemporâneo até músicas de diversas proveniências geográficas-culturais.

O CCB dará nas próximas temporadas atenção acrescida às experiências que se vêm desenvolvendo neste sentido, na Europa e nos Estados Unidos. Nesta primeira série, apresentam-se quatro quartetos que se dedicam à construção de pontes musicais, visando transformar o concerto de câmara cada vez mais numa experiência singular.


I - Quarteto Aviv
Beethoven, Frank Krawczyk
10 de Fevereiro

II - Quarteto Danel
Beethoven, Dusapin; Schostakovich
10 de Março

III - Quarteto Psophos
Schumann, Dvorak, Ohana
25 de Maio

IV - Quarteto Arcanto
Mozart, Krenek, Bartok, Dallapicola
20 de Junho


- I -

Quarteto Aviv
Sala Luís Freitas Branco
10 de Fevereiro, 21H00

Violino - Evgenia Epshtein
Viola - Shuli Waterman
Violoncelo - Rachel Mercer

Programa

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - Opus 18, nº2
Franck Krawczyk (n. 1969) - Quarteto nº2 Coda
Ludwig van Beethoven - Opus 130 (com o final)


O Quarteto Aviv apresenta um programa onde associa ligações entre Beethoven (século XIX) e Franck Krawczyk (século XX). Contrastes e Semelhanças.

O agrupamento integra, pela primeira vez no mesmo concerto, composições de Beethoven e Krawckzyk. De acordo com Sergey Ostrovsky (membro do Quarteto Aviv), o que os une é a idêntica concepção de um quarteto de cordas: formação adequada para expressar toda a tensão e intimidade que ambos os compositores exploram no seu repertório. No final da composição de Krawczyk há um compasso idêntico à cavatina do Opus 130 de Beethoven.

O Quarteto Aviv, fundado em 1977, é composto por músicos e intérpretes israelitas, cujo nível já foi reconhecido nos mais variados concursos e festivais de música internacionais, entre os quais a Festa da Música de 2004.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Christophorus Columbus, Paraísos Perdidos no CCB







Hoje no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém pelas 21h, Christophorus Columbus Paraísos Perdidos

Montserrat Figueras
Hespèrion XXI
La Capella Reial de Catalunya
Jordi Savall


Uma viagem musical através das culturas ibéricas e ameríndias no tempo de Cristóvão Colombo é a nova proposta artística de Jordi Savall.


Partindo do riquíssimo património artístico das culturas cristã, árabe e judaica, e cruzando-o com formas musicais ameríndias arrancadas ao esquecimento por um paciente trabalho de investigação, Jordi Savall, com o apoio do grupo Hespèrion XXI e de La Capella Reial de Catalunya, oferece um espectáculo em que História e Poesia sustentam um diálogo íntimo com as músicas evocadas, mostrando como a aventura de Cristóvão Colombo marcou um momento de viragem na nossa percepção do mundo.


Christophorus Columbus, Paraísos Perdidos” reúne músicos do Ocidente e do Oriente, e recupera instrumentos e sonoridades parcial ou totalmente desconhecidos do público, em espectáculo em que a palavra e a música se juntam, num jogo de luzes e sombras que atravessa o “século de Colombo”, de 1408 até 1506, data da morte do Almirante genovês.


Da combinação entre estas fontes históricas e musicais nasce um espectáculo renovador, no qual a beleza e a emoção da música estabelecem um expressivo diálogo com os textos recitados; uns são descritivos, os outros poéticos, alguns são verdadeiramente cruéis e outros mais dramáticos, mas todos profundamente representativos do acontecer de uma época de mudanças, de um passado remoto que, no entanto, não deveríamos esquecer.


Assim, as músicas dos vilhancicos e romances da época alternam com o dorido e sincero sentimento das crónicas contemporâneas de Andrés Bernáldez, os lamentos sefarditas, as descrições de Ibn Batutta, o diário de bordo do almirante, os contundentes éditos reais, bem como com o magistral verbo poético tanto de Juan del Encina como do granadino Ibn Zamrak, sem esquecer o admirável poema em lingua náhuatl sobre a efemeridade universal.


Constituindo ainda um testemunho vivo de tolerância e convivência entre diversas formas culturais, “Christophorus Columbus, Paraísos Perdidos” entrelaça a música e a literatura da época e oferece-nos um panorama, breve mas intenso, desses dias cruciais de metamorfose cultural em que um Velho Mundo desaparecia e um Novo Mundo estava a nascer.


Os sopranos Montserrat Figueras e Arianna Savall, o mezzosoprano Begoña Olavide e os tenores Lluís Vilamajó e Furio Zanasi são alguns dos cantores que participam neste espectáculo, que conta ainda como recitantes Jesús Fuente, para os textos em castelhano, e Manuel Forcano, para os textos em latim, aramaico, árabe e náuhatl. A concepção e direcção musical do espectáculo é de Jordi Savall.

CHRISTOPHORUS COLUMBUS
Paraísos Perdidos

PROGRAMA
PROFECIA: Medeia (tragédia), Séneca (s. I d.C.)
CORO: Tethysque novos detegat orbes
INVOCAÇÃO: Nunc iam cessit pontus
TEXTO RECITADO: “Venient annis sæcula seris...” (“Virão futuros anos...”)
Medeia, Séneca (texto citado e traduzido por Colombo no seu Libro de las Profecías)
1408 Reinado do Emir Nazarí Yusuf III
TEXTO RECITADO: “Descripción de las bellezas de Granada”, Ibn Battuta, Los viajes
Mowachah Billadi askara min aadbi Llama (Al-Andalus)
1451 (Outubro) Nascimento de Cristóvão Colombo
TEXTO RECITADO: “Siendo sus antepasados de la real sangre de Jerusalem...”, Fernando de Colombo
“Sus padres fueron personas notables...”, Frei Bartolomé de las Casas
Strambotto: O tempo bono - Anónimo CMM 132
1474 (25 de Junho) Carta do médico de Florença Toscanelli enviada a Príncipe D. João
TEXTO RECITADO: “Mito ergo sue maiestati cartam, manibus meis factam...”
(“Um mapa feito com as minhas próprias mãos,... sobre as viagens para ocidente...”)
Danza Alta: Mappa mundi - Johannes Cornago
1480-85 Naufrágio de Colombo no Cabo de São Vicente
TEXTO RECITADO: “El Almirante salió al encuentro de cuatro grandes galeras...”, Fernando de Colombo
Vilhancico: Meis olhos van por lo mare – Anónimo CMP 453
1485 Casamento de Colombo durante a sua permanência em Portugal
TEXTO RECITADO: “Como no estaba muy lejos de Lisboa”
Villota: Dindirindin - Anónimo (siglo XV) CMM
1486 Colombo apresenta o seu projecto aos Reis Católicos
TEXTO RECITADO: “Atendiéndose al uso castellano de decir Duda San Agustín...”, Fernando de Colombo
Frottola: In te, Domine, speravi - Josquin des Près
O fim de Al-Andalus
Poema em pedra da Alhambra de Granada: “Soy el jardín que la belleza adorna”, Texto en árabe de Ibn Zamrak
Nuba (instr. Al-Andalus)
1492 (Janeiro) A Conquista de Granada
TEXTO RECITADO: “Del partido de la Alhambra y de cómo se dio Granada...”, por Andrés Bernáldez, pároco e confessor da raínha Isabel I e do Inquisidor Geral de Castela
Romance: Qu’es de ti desconsolado - Juan del Enzina
Vilhancico: Levanta Pascual que Granada es tomada - Juan del Enzina
1492 A Diáspora Sefardita
Las estrellas de los cielos (viola)- Anónimo Sefardita
A Santa Inquisição: Hino: Patres nostri peccaverunt - Johannes Cornago
1492 (31 de Março) A Expulsão dos Judeus não convertidos
TEXTO RECITADO: Édito de Expulsão dos judeus, Joan Coloma, Secretário dos Reis, Granada, 31 de Março de 1492
ORAÇÃO: em Aramaico y judaico-castellano: Ha lahma ‘anya (O pão da aflição) - Anónimo Sefardita
TEXTO RECITADO: Testemunho da expulsão dos judeus, por Andrés Bernáldez, confessor da Raínha
Lamento em hebreu: Ma aidej? Ma adamelaj (Quem poderá salvar-te y consolar-te, filha de Sião?)- Anónimo Sefardita
1492 (11-12 de Outubro) Da caravela La Pinta avista-se o Novo Mundo
Fantasia (instr.) – Lluís del Milà
TEXTO RECITADO: Cristóvão Colombo, Carta aos Reis Católicos (Primeira viagem):
“Así que después de haber echado fuera todos los judíos...”
Voca la galiera (instr.) - Anónimo CMM
TEXTO RECITADO: “...Navegó al Ouesudeste. Tuvieron mucha mar...”
1502 Conversão forçada de todos os mouros dos Reinos de Castela
TEXTO RECITADO: “Viendo el Rey y la Reyna que los moros mudejares...”,
Crónica de los reyes de Castilla, Cap. CXCVI
Lamento: Nuba Hiyay Msmarqi. Ya muslimin qalbi (Árabo-andaluz s. XVI)
1502 Moctezuma II é escolhido como imperador azteca
Poema Náuhatl sobre a efemeridade universal
TEXTO RECITADO: “¿Cuix oc nelli nemohua oa in tlalticpac Yhui ohuaye?”
(Será verdade que vivemos sobre a terra?)
Música ameríndia - Anónimo (Flauta e tambores)
1504 Testamento da Raínha Isabel I de Castela: Sobre el trato a los indios
Romanesca (instr.) - Anónimo
TEXTO RECITADO: “Y no consientan ni den lugar que los indios...”, Fray Bartolomé de las Casas
Vilhancico: Todos los bienes del mundo,Juan del Enzina
1506 (20 de Maio) Morre em Valladolid Cristóvão Colombo
TEXTO RECITADO: “El Almirante, cuyas condiciones se habían agravado...”
Miserere nostri (instr.) CMM
EPITÁFIO: Fragmento de uma carta do Almirante
Fantasia I (Vihuela) - Lluís del Milà
“No soy el primer Almirante de mi familia ...”
Hino de procissão em língua Quechua: Hanacpachap cussicuinin - Juan Pérez Bocanegra
FIM DE FESTA: Miguel de Cervantes, sobre a Chacona: “Esta indiana amulatada que nos viene de las indias”
Chacona: A la vida bona - Juan Arañés

Texto Institucional - CCB
O espectáculo desta noite é mais que um acto estético. Na sua proposta poética e musical, Christophorus Columbus, Paraísos Perdidos assume-se também como um gesto cívico de alcance cultural e social. O espectáculo concebido por Jordi Savall, cobrindo o “século de Colombo”, pretende mostrar o outro lado do espelho onde, de há cinco séculos para cá, o Ocidente cristão vê a sua imagem reflectida e constantemente engrandecida. A visão de Savall é crítica desta espécie de narcisismo, denuncia-lhe as rugosidades e evidencia as dolorosas contrapartidas que ela exigiu, em termos culturais.

Mas a atitude que dele se desprende não é a de uma qualquer auto-punição ou apressada condenação, que seriam sempre descontextualizadas do tempo em que os factos históricos se verificaram. Pelo contrário, o espectáculo resgata do esquecimento parte (uma pequena parte) daquilo que se perdeu; digamos que torna patente e audível o preço que se pagou, naquelas conturbadas décadas em que o fogo da intolerância e da soberba ateado por uma visão expansionista e exclusivista da religião cristã queimou casas, vidas, patrimónios, tradições e formas culturais que até então tinham coexistido na Península Ibérica (as culturas cristã, árabe e judaica), ou que constituíam património de culturas distantes, como as da América pré-colombiana.


Christophorus Columbus, Paraísos Perdidos não é, assim, um libelo político, uma denúncia da intolerância per se, mas um elogio da tolerância, que ressalta do extraordinário repositório de músicas diversas que aqui se apresentam. E aprofunda o trabalho de resgate de formas de coexistência cultural, que Jordi Savall tem vindo a propor com intensidade crescente, e de que são excelentes exemplos, também, e por exemplo, a recuperação da música sefardita ibérica anterior à expulsão dos judeus, ou o trabalho Oriente-Occidente, em que se exploram expressões musicais tão distantes no espaço quanto próximas na sensibilidade propriamente humana e universal que as engendrou.


Neste princípio do ano de 2007, por uma interessante convergência de preocupações, algumas das principais instituições culturais portuguesas têm vindo a programar manifestações que, em domínios diversos, abordam a problemática da intolerância, numa previsível reacção aos mais que perturbantes sinais dos tempos. A apresentação, pela OrchestrUtopica, em concerto realizado no CCB em 24 de Janeiro, de um programa musical colocado sob o signo da “Intolerância” na música do século XX, foi uma primeira incursão neste território; o espectáculo de hoje, que bem podia ser colocado sob o signo da “Tolerância”, constitui uma segunda tentativa de nos confrontar com os desastres e os prejuízos que a incompreensão e a violência causaram, no decurso da nossa História moderna.


Por isso, tanto pela dimensão estética da proposta quanto pelo seu alcance cultural e civilizacional, o CCB orgulha-se de acolher o espectáculo que esta noite se apresenta no Grande Auditório, saudando, no maestro Jordi Savall, todos os músicos, cantores e recitantes que se juntaram para criar esta evocação singular de uma parte daquilo que perdemos ao começarmos a ganhar a nossa modernidade.
Fundação Centro Cultural de Belém


Texto de Jordi Savall
O nosso passado não nos pertence em exclusivo. O espaço geográfico que a nossa cultura ocupou ao longo dos séculos acolheu no seu interior povos diversos, com diferentes formas culturais e religiosas como, nos tempos da antiga Hespéria, a muçulmana e a judia. Mas durante a Idade Média – que foi, como a actual, uma época de ódios religiosos e de incompreensão – o paraíso da Hespéria das “Três Culturas” degradou-se; no entanto, apesar da intolerância e das crueldades, árabes e judeus viviam entre nós, viviam como nós, eram parte de nós. Em finais do século XV, após a conquista de Granada, foram expulsos, ou convertidos ao cristianismo por decreto, e a sua partida significou o fim de uma época, a perda de um paraíso possível: essa perda, denunciam-na os textos, choram-na as músicas, mas ilumina-a a memória, dignifica-a a nossa consciência.


Em paralelo com estas convulsões, emerge uma figura excepcional: Cristóvão Colombo, o almirante que em 1492 descobre o Novo Mundo. Um novo paraíso irá ser transformado: a chegada dos colonizadores vai provocar, por um lado, a destruição e desaparecimento de muitas culturas indígenas, por outro, a cristalização de uma mestiçagem social e cultural muito frutuosa, tanto no Velho como no Novo Mundo.


As músicas da época, em conjunto com os diferentes textos que marcam a biografia de Cristóvão Colombo, em especial os que foram por ele anotados nos seus cadernos, como a premonitória citação do coro da tragédia Medeia de Séneca (que anuncia a existência de um mundo desconhecido para lá da ilha de Tulé, o qual será descoberto por um audaz marinheiro), são testemunhos directos e reveladores de todas estas profundas transformações. Da combinação entre estas fontes históricas e musicais nasce um espectáculo renovador, no qual a beleza e a emoção da música estabelecem um expressivo diálogo com os textos recitados; uns são descritivos, os outros poéticos, alguns são verdadeiramente cruéis e outros mais dramáticos, mas todos profundamente representativos do acontecer de uma época de mudanças, de um passado remoto que, no entanto, não deveríamos esquecer. A música permite aproximarmo-nos com intensa emoção das crónicas deste século excepcional, que mostram a extrema ambivalência de uma época convulsa e criativa, a qual, apesar das suas numerosas sombras, se destacou por um brilhante florescimento de todas as artes. Escutemos como as músicas maravilhosas dos vilhancicos e romances da época alternam com o dorido e sincero sentimento das crónicas contemporâneas de Andrés Bernáldez, os lamentos sefarditas, as descrições de Ibn Batutta, o diário de bordo do almirante, os contundentes éditos reais, bem como com o magistral verbo poético tanto de Juan del Encina como do granadino Ibn Zamrak, sem esquecer o admirável poema em lingua náhuatl sobre a efemeridade universal.


Com esta proposta queremos, além de recuperar um importante património musical interpretado vocal e instrumentalmente com critérios históricos e com instrumentos de época, prestar também a nossa homenagem às outras principais culturas da época. Desta forma, as nossas músicas de corte, conservadas em valiosos manuscritos, são complementadas com as músicas de tradição oral procedentes das culturas árabe e judaica, e com as de um Novo Mundo hoje desconhecido, aquí simbolicamente evocadas pelo sugestivo som das diferentes flautas originárias das antigas culturas ameríndias. Recordar os momentos mais significativos deste século não se reduz a juntarmo-nos à comemoração do quinto centenário da morte de Cristóvão Colombo (1506-2006). De uma forma simbólica, mas profundamente sincera, queremos dar a este projecto o sentido de um gesto necessário de desagravo para com tantos homens e mulheres, que, porque pertenciam a culturas e crenças tão diferentes das nossas, não fomos capazes de entender nem de respeitar. Os Paraísos Perdidos entrelaça a música e a literatura da época e oferece-nos um panorama, breve mas intenso, desses dias cruciais de metamorfose cultural em que um Velho Mundo desaparecia e um Novo Mundo estava a nascer.


O testemunho dos textos, seleccionados por Manuel Forcano, e por ele recitados em árabe, hebreu, aramaico, latim e náuhatl, e os recitados por Jesús Fuente em castelhano, bem como as músicas cantadas, também em latim, hebreu, árabe, quechua, ladino, castelhano, catalão e italiano, entre outros, por Montserrat Figueras, Begoña Olavide, Lluis Vilamajò e os solistas de La Capella Reial de Catalunya, são a melhor prova da riqueza cultural de uma época que as viu desaparecer dos nossos horizontes, e que actualmente nos recordam quão importante e necessário é o diálogo e a compreensão entre as diversas religiões e culturas, se quisermos ser capazes de preservar e restaurar, neste conflitual século XXI, uma bagagem cultural de tal envergadura e significado.


Os Paraísos Perdidos propõe um merecido reconhecimento à literatura, à história e à música da antiga Hespéria e do Novo Mundo. Plenamente conscientes de que mais de quinhentos anos nos separam dessas épocas remotas, cremos no entanto que, da mesma forma que a qualidade poética e a força expressiva da evocação recitada podem contribuir para que os acontecimentos mais dramáticos desse tempo voltem a comover-nos, também a beleza e a vitalidade dessas músicas podem emocionar-nos intensamente. Recordamos também que, ainda que a sua dimensão artística seja intemporal, todas estas músicas, os seus instrumentos, as suas formas, os seus sons, em definitivo, o seu estilo, transportam consigo, inevitavelmente, a marca do tempo.


Por isso, optámos pela justa adequação histórica vocal e instrumental, complementada pela correspondente capacidade de imaginação criativa que tão bem caracterizam os solistas vocais e instrumentais de Hespèrion XXI e de La Capella Reial de Catalunya, bem como a presença dos solistas especializados nas tradições orientais, e nos instrumentos antigos (flautas ameríndias) do Novo Mundo.


O poeta Jorge Manrique escreveu: “¿Qué se hizo aquel trovar, las músicas acordadas qué tañían?” Com este espectáculo, os escritores, musicólogos, recitantes, cantores e instrumentistas que colaboram neste projecto propõem dar não só uma desposta à pregunta do poeta, como ainda sugerir uma hipótese de reflexão: as músicas vivas de tempos remotos, quando ligadas à memória da nossa História, podem transformar-se na alma de uma renovada visão crítica e humanista das nossas origens, e talvez também ajudar-nos a libertarmo-nos um pouco mais de uma certa amnésia cultural, especialmente grave no que diz respeito à nossa música. Só assim, recuperando e revitalizando o antigo património musical, e encarando a história e o passado de uma outra perspectiva, poderemos imaginar e construir melhor a memória do futuro.
JORDI SAVALL

Texto de Rui Vieira Nery
Da Profecia à Tragédia
1. «Tempos virão em que o oceano aliviará os nós das coisas e uma grande terra emergirá das águas e um grande marinheiro, como aquele que foi o timoneiro de Jasão, Tífis de seu nome, descobrirá um novo mundo e então a ilha de Tule deixará de ser a mais remota de todas as terras.» A voz perturbante de Montserrat Figueras é mais uma vez a de uma Sibila, enquadrada pelo murmúrio de um coro de sacerdotes, enunciando as proféticas palavras de Medeia, tal como foram escritas pelo filósofo e dramaturgo romano Séneca, no início do século I da era cristã.
A profecia de Medeia é quase assustadora na sua descrição claríssima de um acontecimento que não ocorrerá senão quinze séculos mais tarde. Porém, esta crença num novo mundo ainda por descobrir estava profundamente enraizada na tradição cultural da Grécia Antiga, assim como no legado dos grandes profetas hebreus do Velho Testamento e esteve desde sempre no centro da visão do mundo medieval e do início da Renascença.


Cristóvão Colombo estava profundamente consciente desta linha de pensamento consagrada pela tradição. Entre outras fontes, tinha lido Historia rerum ubique gestarum do papa Pio II e Imago mundi do cardeal Pierre d’Ailly e conhecia os relatos das viagens de Marco Polo ao Extremo Oriente. Mais tarde, nos últimos anos da sua vida, acabaria por se convencer de que o êxito da sua viagem de descoberta correspondera ao efectivo cumprimento de todas essas profecias. Em 1501, com a ajuda de um amigo querido, o frade cartuxo Gaspar Corricios, terá começado a escrever uma extensa antologia de todos os excertos de autores clássicos, bíblicos e eclesiásticos nos quais encontrou alguma referência a esta visão: o Libro de profecias. Esta obra escapou miraculosamente ao misterioso destino de tantas outras fontes primárias associadas ao almirante, que mergulhou a biografia de Colombo numa névoa de incerteza e alimentou uma cadeia inesgotável de hipóteses sobre as suas origens familiares e as primeiras etapas da sua vida.


Seria Colombo realmente um italiano de Génova, como a sua biografia oficial sempre defendeu? Ou era afinal um judeu catalão convertido, tentando escapar à perseguição religiosa? Ou seria talvez um membro da mais alta nobreza portuguesa, numa missão do rei de Portugal? Ou até mesmo um galego? Nenhuma destas interpretações alternativas, muitas vezes intrincadamente urdidas com as mais inverosímeis teorias de conspiração histórica, sobreviveu às críticas de académicos reconhecidos, mas todas elas acabam por decorrer, afinal, da enigmática ausência de fontes primárias relevantes, a começar pelos seus diários de viagem autênticos. O mito alimenta-se sempre das lacunas de informação que a investigação académica não consegue preencher. Todavia, não deixa de ser curioso, por outro lado, verificar que um dos mais intrigantes documentos autógrafos que existe de Colombo é precisamente um texto profundamente imbuído da tradição mítica: o já mencionado Libro de profecías, conservado na Biblioteca Colombina y Capitular de Sevilha (z. 138-25).


Esta aparentemente caótica compilação de salmos, profecias bíblicas, citações clássicas e passagens dos escritos dos pais da Igreja foi frequentemente subestimada, sendo considerada como um mero texto de devoção, senão mesmo como um inequívoco testemunho da alegada instabilidade mental do almirante no final da sua vida. Na realidade, porém, trata-se de um documento extremamente revelador, que denota a forma como a visão de Colombo sobre o significado supremo da sua viagem de descoberta se alicerçava, também ela, no mito: uma “grande narrativa” do cristianismo que finalmente englobava a humanidade no seu conjunto, devido à conversão de todas as nações. O rendimento obtido nas terras recém-descobertas geraria a riqueza necessária para pagar a reconquista de Jerusalém e o devido cumprimento do objectivo de Deus na Terra, tal como fora anunciado nas Escrituras. Colombo acreditava firmemente ser o instrumento escolhido por Deus para realizar esse propósito de unificação e salvação mundiais.



2. Independentemente do lugar específico onde terá nascido, Colombo é um produto da Europa meridional, dessa costa norte do Mediterrâneo Ocidental que começa na península italiana e na Sicília, continua através do Midi francês e se prolonga para Espanha, ultrapassando o estreito de Gibraltar e abrindo-se para o Atlântico, ao longo de toda a costa de Portugal. Desde tempos imemoriais, esta região tem sido sempre cenário de inúmeros encontros de diferentes culturas: o Império Romano – em si próprio um mosaico intercultural complexo – cedeu ao avanço das várias tribos migratórias germânicas nos séculos IV e V e ambas as partes acabaram por se fundir nos vários reinos cristãos primitivos da Alta Idade Média. Os legados latino e germânico combinaram-se para criar novas identidades culturais mistas que foram buscar elementos a ambas as tradições e, à medida que a Igreja ia conseguindo reconstruir gradualmente a sua hierarquia transnacional, este impulso de integração cultural também se foi tornando mais forte.


Porém, quase desde o início, este processo teve de enfrentar um grave desafio, com a chegada à região do Mediterrâneo Ocidental de uma outra religião monoteísta com uma estratégia de expansão igualmente forte – o Islão. Os árabes depressa conquistaram todo o Magrebe, invadindo depois a Península Ibérica e ocupando-a quase integralmente, à excepção de um pequeno enclave cristão no norte, nas montanhas das Astúrias. Quando Carlos Martel, o prefeito do palácio do reino franco da Austrásia, derrotou o exército árabe de Abd al-Rahman em Poitiers, em 732, a sua vitória teve o efeito imediato de travar o avanço da ofensiva militar muçulmana contra a Europa Ocidental. No entanto, teve também duas outras consequências importantes para a história do continente no seu conjunto: por um lado, esteve na base do prestígio político da família de Carlos Martel que iria permitir que o seu filho, Pepino, o Breve, se tornasse mais tarde, em 750, rei de todos os francos e que, no ano de 800, transformou o filho do próprio Pepino, Carlos Magno, no primeiro imperador do Ocidente desde a queda de Roma; por outro lado, fez dos Pirenéus uma fronteira cultural tanto quanto militar, a ocidente da qual as coisas eram necessariamente muito diferentes daquilo que acontecia no resto da Europa.


Ao longo de toda a Idade Média, a velha Hispânia esteve sob uma constante agitação política, como um mosaico de entidades separadas em constante mutação, tanto do lado cristão como do lado muçulmano. A Al-Andalus islâmica unificada alcançou o seu auge de poder, riqueza e esplendor civilizacional com o estabelecimento do Emirato Omíada (posteriormente Califado) de Córdoba, em 755. Porém, em 1031, a queda do último califa levou à subdivisão do seu território em vários estados independentes, os chamados reinos taifa, que depressa se envolveram em constantes lutas entre si, assim como contra os novos exércitos muçulmanos que vinham do Norte de África em resposta ao pedido de ajuda de um ou outro destes soberanos (os Almorávidas depois de Toledo, em 1085, os Almóadas depois da queda de Lisboa, em 1147), mas que rapidamente passavam a ser apenas mais um adversário a disputar uma terra apetecida.


Quanto aos cristãos, o primitivo reino das Astúrias, que tinha sobrevivido à invasão árabe, em breve deu origem a novas entidades políticas – os reinos de Leão e Castela (que mais tarde se unificariam sob uma só coroa), assim como os de Aragão, Navarra e Portugal.


Esta subdivisão geopolítica da Península Ibérica estava em constante mutação, devido a todo o tipo de factores: a força militar pura e a habilidade diplomática, as alianças matrimoniais e as parcerias comerciais. Muitas vezes, os conflitos militares não ocorriam necessariamente segundo linhas de fronteira estritamente religiosas: um monarca cristão e um rei muçulmano podiam aliar-se contra um inimigo comum e, em períodos de debilidade, um território governado por qualquer uma das religiões podia ser forçado a pagar um pesado tributo à força militar mais poderosa de um reino vizinho do credo oposto. Além disso, ocorria à escala peninsular uma vasta circulação de produtos comerciais de diversos tipos, abrangendo igualmente os estados muçulmano e cristão.


Internamente, apesar de ocasionais migrações ou “limpezas étnicas” no seguimento de uma operação militar, todos estes reinos tinham uma população estável, uma mistura de árabes e cristãos, aos quais se juntavam as comunidades judaicas, ricas e extremamente cultas, instaladas nas cidades mais importantes. Embora se deva dizer que os governantes islâmicos eram consideravelmente mais tolerantes em relação a outras práticas religiosas do que os seus homólogos cristãos, era preciso manter um certo equilíbrio natural nesta matéria para que a economia pudesse funcionar e a sobrevivência de todos pudesse ser assegurada. De certa forma, as duas principais comunidades religiosas precisavam uma da outra, do mesmo modo que ambas precisavam dos judeus, os quais, por sua vez, não poderiam sobreviver sozinhos dentro deste sistema.


A coexistência diária implicava também, necessariamente, um intercâmbio cultural. A todos os níveis da sociedade, pessoas com diferentes origens étnicas e religiosas ouviam, por exemplo, as canções e as danças umas das outras e instrumentos como o ad ou o rebab circulavam de uma cultura para a outra. As primeiras universidades cristãs, como a de Salamanca e a de Coimbra, não podiam evitar o estudo das obras dos matemáticos, astrónomos e cartógrafos árabes e judeus, que eram frequentemente contratados pelos próprios reis cristãos como conselheiros e administradores. No domínio da teoria da música, em particular, os tratados de Al-Farabi eram considerados como uma referência fundamental. Quando os fidalgos trovadores galaico-portugueses começaram a desenvolver um género próprio de cantiga cortês, sob a influência de um movimento análogo no sul de França, acabaram por encontrar uma referência muito mais próxima nos padrões extremamente requintados da poesia e da música árabes. Era também nas cidades árabes que podia ser encontrado todo o tipo de produtos de luxo agora extremamente desejados, estranhos à austera tradição visigótica e esquecidos desde os tempos remotos do Império Romano. As iluminuras das Cantigas de Santa Maria, reunidas sob o patrocínio do rei Afonso X de Leão e Castela, assim como as do Cancioneiro da Ajuda, de Lisboa, retratam um sem-número de músicos árabes reconhecidamente envolvidos na execução deste repertório.


Muitos dos reis muçulmanos eram eles próprios poetas e/ou músicos: o rei de Granada, Yusuf III, que reinou entre 1408 e 1417, deixou-nos, por exemplo, algumas passagens maravilhosas de poesia naturalista – e, em alguns casos, claramente homo-erótica – cujos ecos podem ser encontrados, sob muitos aspectos, nos trabalhos dos poetas cristãos do período da Alta Idade Média e do início da Renascença.


Independentemente das suas origens, Colombo viveu seguramente no meio desta realidade multiétnica de constante intercâmbio cultural, intelectual e artístico, para a qual a música, pela própria natureza não verbal do seu discurso, era decerto fundamental. Infelizmente, a música árabe-andalusa desta época não era transcrita em notação musical e quaisquer tentativas de reconstruir a prática musical de então têm de se basear no repertório transmitido oralmente, preservado na estrita tradição ensinada nas escolas de música marroquinas, que afirma ter preservado uma grande parte do repertório e da prática de execução, tal como foram trazidos da Península Ibérica nos séculos XV e XVI. Uma grande parte desta música implica um considerável grau de improvisação, de acordo com normas codificadas.



3. No início do século XV, o equilíbrio de poder tinha evoluído significativamente na Península e já não havia quaisquer dúvidas quanto ao resultado militar do confronto entre os reinos cristão e islâmico locais. Em Portugal, Castela e Aragão, a centralização do poder nas mãos do soberano foi construindo gradualmente o padrão básico do moderno estado absolutista, no qual a igreja e a administração pública eram vistas como os dois pilares da autoridade do monarca. Em vez de um mero comandante militar e primus inter pares entre a nobreza mais elevada, o rei procurava afirmar-se como uma entidade acima de todas as classes, sagrado e directamente legitimado pela vontade e graça de Deus. Iria criar uma corte segundo o modelo promovido pelos Duques de Borgonha no seu opulento paço de Dijon, reunindo em torno de si as camadas mais altas da aristocracia, assim como eruditos altos funcionários da administração pública, não hesitando em abolir privilégios tradicionais da hierarquia da igreja ou das comunidades urbanas estabelecidas na Idade Média.


Não se tratava aqui apenas de uma concepção meramente política. O desenvolvimento do comércio internacional e a transição gradual para uma economia monetária atribuía ao estado um novo papel regulador, que incluía uma colecta de impostos muito mais significativa e abrangente e a sua redistribuição através de uma administração organizada e centralizada. Talvez mesmo mais do que quaisquer outros soberanos absolutistas da Europa da sua época, os monarcas ibéricos acreditavam na necessidade de envolver o seu recém–reforçado poder numa nova aura de majestade e numa afirmação simbólica de privilégio real, que tocava todos os domínios da produção artística patrocinada pelo estado. A criação de capelas musicais ricamente providas ao serviço de cada soberano peninsular do século XV, compostas pelos melhores músicos então disponíveis, constitui uma parte importante desta estratégia. As cortes castelhana, aragonesa e portuguesa depressa se transformaram em centros culturais sofisticados, onde o desenvolvimento da canção e da dança seculares, de acordo com os padrões mais cosmopolitas da Europa contemporânea, acompanha o reforço do repertório sacro polifónico executado pelas capelas reais.


Esta é uma era de afirmação geopolítica e militar agressiva para cada um destes estados. Portugal, preso entre Castela e o Atlântico e assim incapaz de se expandir territorialmente na Península, procura o seu caminho além-mar: em 1415, os exércitos portugueses conquistam a fortaleza de Ceuta, em Marrocos; em 1418, navios portugueses chegam à Ilha da Madeira e, alguns anos mais tarde, começam a explorar a costa de África. Aragão investe fortemente na expansão dos seus territórios italianos e, em 1443, Alfonso V, o Magnânimo, faz a sua entrada triunfante em Nápoles como rei de Aragão, Maiorca, Nápoles e Sicília. Castela procura, acima de tudo, conseguir a derrota final do reino mouro de Granada e, em 1410, uma operação militar em grande escala leva à conquista da cidade de Antequera.


O casamento dos herdeiros dos tronos de Aragão e Castela, Fernando e Isabel, respectivamente, que terá lugar em 1469, cria uma nova e poderosa aliança entre os dois adversários tradicionais. Seria irrealista da sua parte tentarem anexar Portugal, mas é todavia importante conseguirem competir com os portugueses na lucrativa exploração do Atlântico, onde estes tinham já um bom avanço. Assim, em 1470, Isabel e Fernando ordenam a ocupação das Ilhas Canárias. Depois, em 1482, uma grande ofensiva conjunta é lançada contra Granada: a cidade de Alhama cai a 14 de Maio, abrindo caminho para a capital mourisca e a partir de então, durante uma década inteira, cidade após cidade vai caindo nas mãos dos exércitos castelhanos-aragoneses, até que o casal soberano entra finalmente em Granada, a 2 de Janeiro de 1492, e aceita a rendição do último rei muçulmano da dinastia Nasrida, Abu 'abd Allah Muhammad XI, conhecido entre os espanhóis como Boabdil.


Todas estas vitórias militares são devidamente celebradas através do canto e os cancioneiros polifónicos compilados na Península Ibérica (Cancionero del Palacio) ou em Nápoles (Cancionero de Montecassino) incluem, para além das requintadas canções de amor que se tornaram um símbolo fundamental de distinção musical para a nobreza cortesã, romanças estróficas múltiplas que exaltam as vitórias dos monarcas conquistadores. Particularmente importante para Isabel e Fernando, que sentem a necessidade de construir uma causa comum capaz de mobilizar duas nações tradicionalmente rivais, é a produção de um discurso “católico” unificado, por oposição ao inimigo “herege”. Um vasto repertório poético e musical reaviva o espírito de uma cruzada anti-muçulmana, vista como a base de uma identidade nacional “espanhola”, partilhada por aragoneses e castelhanos, conduzidos pelos “Reis Católicos” («ela com orações, ele com muitos homens armados», como diz o poema de uma romança narrativa da época).



4. A vitória de Granada marca o início de uma nova era na cultura ibérica, em que a diversidade cultural e religiosa que tinha conseguido sobreviver ao longo de toda a Idade Média é simplesmente abolida pelo novo estado absolutista triunfante. Em breve, através do chamado “Decreto de Alhambra”, de 31 de Março de 1492, simbolicamente assinado na recém-conquistada cidade de Granada, os dois soberanos expulsam do seu reino todos os judeus que não se convertem ao cristianismo, uma medida que o rei de Portugal, D. Manuel I, irá também aplicar quatro anos mais tarde, tanto a hebreus como a mouros. Aqueles que partem levam consigo a memória terna e nostálgica da terra que deixam para trás, memória essa que irão codificar em música, como uma espécie de chave para a sua própria identidade específica no seio das várias comunidades que os irão acolher em toda a bacia do Mediterrâneo. As canções “sefarditas” são preservadas pelos judeus ibéricos em sinagogas de Dubrovnik, de Veneza, da Palestina ou do Iémen, tal como o cantar “andaluz” permanecerá, até aos nossos dias, a prática emblemática dos muçulmanos que partiram de Espanha e de Portugal para o Magrebe.


Infelizmente, é este modelo de um fundamentalismo religioso controlado pelo estado e de uma brutal intolerância cultural que será agora também levado para o Novo Mundo. O sonho de Colombo de uma Epifania Cristã Utópica dirigida à humanidade no seu conjunto dá lugar a uma operação em grande escala de genocídio e exploração, movida pela cupidez e pela ambição. A história dá-nos alguns exemplos dessa brutalidade, dessa incapacidade de compreender e de respeitar as diferenças culturais, desse desprezo pela dignidade humana.


E, todavia, artistas e músicos mostrarão, também aqui, que são capazes de lutar contra a crueldade e a estupidez com os poderes curativos e comunicativos do seu ofício. Tanto na própria Península Ibérica como em toda a América Latina, as diversas tradições culturais irão de algum modo encontrar maneiras de interagir e depressa emergirá um mosaico de processos interculturais com uma energia e uma criatividade tão espantosas como aquelas que caracterizaram o repertório ibérico medieval. Um cântico de procissão em Quechua, Hanacpachap Cussicuinim, publicado em 1631 no Ritual Formulario de Juan Pérez Bocanegra, consegue combinar uma melodia ameríndia com um arranjo polifónico europeu, numa oração mariana que retrata a Virgem como «a esperança da humanidade e a protectora dos fracos». Da mesma forma que o diálogo musical entre as diferentes culturas pode ocorrer mesmo sob condições de grande opressão, a religião e o canto sacro podem transformar-se, de arma de domínio, na voz dos oprimidos.
RUI VIEIRA NERY

BIOGRAFIA
Jordi Savall
Infatigável explorador de repertórios, mestre de toda uma geração de violistas – ensina, desde 1973, na Schola Cantorum de Basileia – intérprete do seu instrumento, para além do que pode permitir uma técnica irrepreensível, director de orquestra e de coro, Jordi Savall abre as portas, tira da sombra e dá a ouvir, há várias dezenas de anos, obras que nunca teriam esperado sobreviver ao seu século. Jordi Savall revitaliza e revaloriza, com uma fé inquebrantável, repertórios que é o único a pressentir mas que sabe fazer apreciar a milhares de ouvintes. A viola de gamba, desaparecida no séc. XVIII, deve-lhe a sua segunda vida, projectada no grande écran com o filme Tous les matins du monde (1991).
Se o filme de Alain Corneau e o sucesso sem precedentes que a banda original de que ele é o principal responsável são os aspectos mais mediáticos da sua acção, a verdade é que vêm na continuidade de uma vida inteira dedicada à descoberta de novos horizontes para as músicas antigas e barrocas, nomeadamente de origem ibérica. Criando um estilo que lhe é próprio, resolutamente emancipado de toda a tradição que não tenha as suas raízes directas na origem, este catalão, nascido em 1941 em Igualda, fornece matéria para investigações que agora se estendem por várias gerações.
Rui Vieira Nery

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

A Extremadura no Teatro Nacional D. Maria II


O Teatro Nacional D. Maria II, em parceria com a Junta da Extremadura, apresenta, de 8 a 11 de Fevereiro, vários espectáculos provenientes desta região.
Quatro dias dedicados ao melhor teatro e música extremenha nos palcos da Sala Garrett, da Sala Estúdio e do Átrio.
Com este evento o TNDM II pretende contribuir para o desenvolvimento das relações entre Portugal e Espanha e fortalecer os laços de amizade transfronteiriços.

Nós como Tempo
Cada vez mais nos apercebemos que a cultura não é um bem individual. Pelo contrário, ela pode ser um factor de união entre povos e algo que, felizmente, os transcende. Tal é o caso de Portugal e Espanha, dois países vizinhos cujas raízes na Península Ibérica são comuns. A grande casa em que navegamos é o mundo e torna-se, por isso, urgente desenvolver as relações transfronteiriças e, a partir das raízes conjuntas, anunciar futuros encontros.

É nesse contexto que apresentamos estes quatro dias dedicados à Extremadura, com uma programação que vai desde o teatro, com Soliloquio de Grillos da Companhia de Teatro Triclininum e Solo Hamlet Solo apresentado pela Companhia E de Streno, até à música, destacando-se as sonoridades diversas de Gecko Turner, Los niños de los ojos rojos, o flamenco de La Familia Vargas, El Lusitania Jazz Machine e Luis Pastor que, acompanhado pela Orquestra Sinfónica da Extremadura, canta o Nobel português José Saramago.

Num país que por vezes esquece as suas raízes históricas, esta mostra é também uma reflexão sobre a necessidade de vencer fronteiras, de nos empenharmos numa efectiva cooperação cultural, enriquecendo ainda mais a visão sobre os dois países. O teatro, como a música, permitem, justamente, construir um universo dramático e artístico que, corporizados em personagens e sonoridades, confrontam as perplexidades da vida. Esta iniciativa é, pois, uma forma de consolidar aquela que esperamos ser uma longa amizade com a Extremadura espanhola e uma coexistência de visões que, embora geograficamente próximas, até então inexplicavelmente afastadas, se observem mutuamente e cresçam nessa observação.

Este derrubar fronteiras pode ser uma forma de construir uma identidade que, ao longo dos séculos, foi submetida a duras e terríveis privações. Mas a história, como a memória, servem apenas para recapitular a vida de um povo. É urgente, por isso, viver do futuro, dos projectos e sonhos que nos fazem ir mais além. Porque é importante saber o «lugar» que ocupamos no mundo e em relação aos outros. De que forma o que se passa em nosso redor pode ser fundamental para alargarmos o mudo diálogo connosco mesmos.

É com esta irresistível vontade de (re)descoberta que queremos proporcionar este olhar sobre o que de melhor se produz na vizinha Extremadura. Uma outra forma de nos pensarmos ou, como bem disse Eduardo Lourenço, “o Tempo – nós como Tempo – tornado sensível, audível, dizível.”
Carlos Fragateiro (director do TNDMII)
José Manuel Castanheira

A presença habitual de artistas portugueses nos palcos e museus da Extremadura tem contribuído para que Portugal ocupe um lugar importante na vida cultural desta região. Nesta ocasião, é a cultura da Extremadura que se aproxima de Lisboa com vários espectáculos para apresentar uma pequena mostra da vivacidade, criatividade e do que é a sociedade actual na Extremadura.
Junta de Extremadura


Programa:

8 de Fevereiro
Sala Estúdio – 19h00 – Soliloquio de Grillos, pela companhia de teatro Triclinium, encenação de Esteve Ferrer. Um espectáculo baseado num texto do poeta e dramaturgo Juan Copete que aborda um acontecimento real, passado durante a Guerra Civil espanhola.

Sala Garrett – 21h30 – Gecko Turner, concerto do cantautor extremenho, a sua música é rica pela variedade de sonoridades e ritmos com que se cruza: soul, reggae, bossa-nova, samba, funk, afrobeat e o flamenco, o ritmo característico do sul da península.

9 de Fevereiro
Sala Estúdio
– 19h00 – Solo Hamlet Solo, espectáculo de Miguel Murillo com encenação de Jesus Manchón. Uma releitura do clássico de Shakespeare.

Sala Garrett – 21h30 – Los Niños de los Ojos Rojos, em concerto. Esta banda apresenta um trabalho carregado de ares balcânicos, hip hop, fusão, beat box, música tradicional irlandesa e estribilhos e canções com uma sonoridade contagiante.

10 de Fevereiro
Sala Garrett
– 21h30 – La Familia Vargas, concerto. Constituída por Miguel Vargas e os seus filhos Juan e Domingo, La Familia Vargas é hoje um dos mais genuínos expoentes do flamenco.

11 de Fevereiro
Sala Garrett
– 18h00 - Orquestra Sinfónica da Extremadura + Luis Pastor concerto. Luis Pastor canta o Nobel português José Saramago acompanhado pela Orquestra Sinfónica da Extremadura.
ÁtrioEl Lusitania Jazz Machine – 21h30 – El Lusitania Jazz Machine é um bom exemplo do “jazz world”. Reunidos no mesmo grupo, instrumentistas extremenhos e portugueses utilizam temas próprios e populares, expressando a realidade de uma música transfronteiriça.
Ficha Técnica:
Soliloquio de Grillos de Juan Copete
COMPANHIA DE TEATRO TRICLINIUM
encenação espaço cénico ESTEVE FERRER
desenho de luz JUANJO LLORENS
figurinos EDUARDO ACEDO
direcção técnica PEDRO RODRIGUEZ
produção executiva ANDREA MOVILLA
produção TRICLINIUM TEATRO
com PAQUI GALLARDO MEME TABARES PACA VELARDIEZ
Vozes: RAQUEL BAZO ANA MARTÍN ESTEBAN G. BALLESTEROS FERNANDO RAMOS PEDRO RODRÍGUEZ JUAN CARLOS TIRADO LALI DONOSO LOURDES GALLARDO JESÚS MANCHÓN ESTEVE FERRER CISCO GALLARDO

SINOPSE
Soliloquio de Grillos” é uma peça baseada num texto do poeta e dramaturgo Juan Copete que aborda um acontecimento real, passado durante a Guerra Civil espanhola. A história é sobre três mulheres desaparecidas na Guerra que são encontradas em valas comuns e que regressam à vida através das recordações e da fusão mágica entre o presente e o passado. Esta viagem é, sobretudo, uma busca da justiça e da dignidade que se deve aos mortos mas, acima de tudo, aos sobreviventes. Três personagens gritam e reivindicam a partir de um túmulo sem nome o reconhecimento das suas vidas. São três mulheres muito diferentes nos seus costumes e no seu modo de entender a vida, porém, estão unidas pelo drama, não já da Guerra Civil, mas das suas consequências, da repressão posterior que durou vários anos.

Três actrizes escondidas nos ossos de três mulheres que fugiram por entre caminhos e sendas de matos e bosques ou abraçaram a miragem republicana de uma Espanha sem misericórdia que se pretendia livre. Três mulheres repletas de medos e sonhos falsos, inventando futuros para neles se refugiarem. Trocam-se palavras de rancor, mas também diálogos de esperança, recordações que se insinuam tão altas que nem o som dos grilos os pode calar.
Solo Hamlet Solo
de Miguel Murillo a partir de Shakespeare
COMPANHIA E DE STRENO
encenação JESÚS MANCHÓN
cenografia MIKELO BRIKOMERIDA SIDOFORMA
figurinos EVA LEÓN LUISI PENCO ISABEL GAMA
música TUTXI
assistente de encenação JOHNNY DELIGHT
coreografia LOLA PRIETO
adereços ISABEL BORRALLO
maquilhagem PEPA CASADO
animação MIKELO ALEX PACHÓN
vídeo RUBÉN PRIETO
desenho de luz FRAN CORDERO
operação de luz JAVIER MATA
desenho de som TUTXI
operação de som I.S.S
produção E DE STRENO
com JOSÉ VICENTE MOIRÓN


SINOPSE
Encontrando-se num campo de batalha, desprovido de qualquer coordenada temporal, Hamlet surge acompanhado apenas pelos seus fantasmas. Representando aquela que é a condição humana, um passado que é uma referência mas que se desvanece quando deixamos de olhar para ele e um futuro que se confunde, inevitavelmente, com o passado, Hamlet chega a esse futuro. A personagem carrega a fúria de um passado que só tem sentido a partir de uma promessa sagrada feita a um espectro, o espectro do seu pai, assassinado pela ambição, traído. Afastando-se daquilo que se julgaria ser uma narração ou um monólogo, este espectáculo reflecte sobre os conflitos que estiveram subjacentes ao processo de criação desta peça, entre eles, o que terá levado Shakespeare a desenhar o melhor retrato cénico da loucura humana, aquela que engendra deuses, espectros, profetas, amores inacessíveis, arte, guerra, morte e esquecimento. No final, deparamo-nos com um Hamlet comprometido até às últimas consequências com a sua causa e generoso com o público por nos permitir desfrutar de outras onze personagens que o convidam a aceitar a sua realidade.
Todos os espectáculos têm entarda livre.
informações
tel. 21 325 08 27
reservas
tel. 21 325 08 35
mailto:marketing@teatro-dmaria.pt